Felicidade Artificial ou razões para a tristeza

Sex, 05 de Setembro de 2014 15:20 Administrador
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Na sociedade da ditadura da felicidade, estar triste equivale a adoecer.

Monica Aiub

Qual a relação entre felicidade e depressão? 

Ao tratar sobre como alguns conceitos da neurociência foram incorporados em nossa linguagem comum, João Teixeira, no livro Filosofia do Cérebro, aponta para um dado significativo de nossa linguagem hoje: não ficamos mais tristes, ficamos deprimidos. Esse uso comum do termo depressão para estados como a tristeza não é meramente uma questão de linguagem. É uma questão conceitual.

Não há espaço para a tristeza em nossa sociedade. Ainda que falemos muito de situações tristes, calamidades, injustiças, violência, tais situações são banalizadas e é traçado um "limite do aceitável" para entristecer-se com elas. Morte, limitações, frustrações, doenças também são banalizadas. Há um momento certo para entristecer-se, afinal todo mundo fica triste, e um caminho comum para lidar com a tristeza e "sair dela" o quanto antes. Supere, pense positivo, procure um médico, tome medicamento... enfim, receitas para superar aquilo que "todo mundo supera".

Contudo, há situações na vida em que a questão não é superar algo e conviver com isso, num movimento interno. Há situações em que a tristeza será o elemento fundamental para que possamos transformar nossas vidas, para que possamos rever os caminhos que escolhemos para construir nosso existir, para organizar nossa sociedade.

Se simplesmente eliminarmos a tristeza com uma felicidade artificial, como já abordado em artigo anterior, não conseguiremos sequer perceber a necessidade de mudança. Isto não significa que devamos optar pelo caminho do sofrimento, da dor, como uma medida, uma regra. Significa, simplesmente, que é preciso observar as próprias emoções e como elas se relacionam com aquilo que vivemos cotidianamente. É preciso observar também as próprias crenças, e qual a relação delas com o real, assim como com a condução de nosso agir.

Não existe uma receita, uma medida, um único caminho para viver. Não existe uma única opção válida. Há muitas e diferentes formas de viver, e elas são validadas pela relação que estabelecemos com o mundo e com os outros que coabitam este mundo conosco. Nossas emoções, entre as quais a alegria e a tristeza, são elementos importantes a serem considerados, mas não há um estado único e imutável que defina o quanto devamos ser alegres ou tristes, felizes ou infelizes.

Texto publicado na íntegra no site Vya Estelar. Para ler mais, clique  aqui