Sociedades Modeladas

Sex, 03 de Outubro de 2014 15:33 Administrador
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Sociedade está modelada molecularmente

por Monica Aiub

"Se buscamos medicamentos que alterem nossos cérebros para que possamos suportar nossa existência, é por que não acreditamos que nosso existir possa ser modificado."

"O grande prestígio da neurociência nas sociedades contemporâneas nasce da desesperança de que elas possam mudar. O sofrimento com males sociais é um drama que passou a ser vivido como se fosse responsabilidade individual, por isso, quando há algo errado com uma pessoa, a primeira hipótese que se levanta é a de que ela precisa de socorro farmacológico, ou seja, que a solução para seu problema precisa ser buscada em nível molecular. As drogas psiquiátricas, por estarem cada vez mais disponíveis, se tornaram soluções individuais para males coletivos, e é isso que faz com que elas tenham cada vez mais sucesso." (João Teixeira, Filosofia do Cérebro, p. 79)

Inicio este artigo com a citação de João Teixeira, que abre a conclusão de seu livro Filosofia do Cérebro (Paulus, 2012). Já comentei este livro em artigos anteriores, e o trago novamente à discussão dada a sua importância no contexto em que vivemos. O livro trata de uma filosofia da neurociência, ou seja, uma reflexão sobre suas bases epistemológicas, lógicas, metafísicas e, principalmente, sobre suas implicações éticas e políticas.

A neurociência ocupa, hoje, o lugar de ciência que serve como fundamento a outras ciências. Queremos explicar a vida, a sociedade, o universo a partir do estudo dos neurônios. Não que estes não nos permitam saber mais sobre nós mesmos e sobre o mundo em que vivemos, mas seu estudo não tem abrangência suficiente para responder a questões de todas as naturezas.

Gilbert Ryle, em Dilemas, nos mostra que muitos dos dilemas que vivemos hoje não são de fato dilemas, são apenas falsos dilemas, gerados por transgressões categoriais, ou seja, colocamos numa mesma categoria elementos que pertencem a categorias distintas. Por exemplo, tentamos responder questões científicas com argumentos religiosos, ou vice-versa.

Não estaríamos fazendo isso quando tentamos explicar e resolver males sociais com interferências na bioquímica do cérebro dos indivíduos, ao invés de pesquisarmos formas para resolvermos os problemas sociais que nos afligem? Insatisfação com o trabalho? Tome medicamento! Problemas nos relacionamentos interpessoais? Tem medicamento! Angústia diante da discriminação e da violência? Mais medicamentos! Tristeza por que seus projetos não estão se concretizando? Tem remédio! Indisciplina na escola? O psiquiatra resolve! Ansiedade gerada pela exigência de padrões de vida e consumo? A indústria farmacêutica tem a solução... São muitos os problemas que dizem respeito a nossos modos de vida em sociedade que tendem a ser solucionados com intervenções medicamentosas. Será que este caminho resolve os problemas?

No mesmo livro, João Teixeira afirma: "O consumo de medicamentos parece afetar as emoções associadas a estados mentais, mas não sabemos ainda se esses estados mentais são de fato modificados. Por exemplo, impulsos suicidas podem ser aliviados por algum tipo de ansiolítico ou neuroléptico. Contudo, isso não significa que possamos afirmar que a ideação suicida tenha sido eliminada ou afetada pela medicação. Um ansiolítico pode atuar apenas para ajudar a esquecê-la ou adiá-la temporariamente. É por isso que podemos questionar se antidepressivos alteram ou suprimem estados mentais e supor que esse tipo de efeito constitua uma evidência em favor da ideia de que a mente é inteiramente determinada pelo cérebro." (2012, p. 27).

Desconhecemos o funcionamento do mental e queremos explicá-lo por algo que também desconhecemos: o cérebro. Mais do que explicá-lo, queremos modelá-lo. Contudo, como questiona João Teixeira, o medicamento modifica nossas ideias ou apenas as atenua? Modifica nossas emoções ou apenas as contêm? Elimina nossas dores, ou apenas as anestesia? São questões que não temos como responder exatamente. Ainda assim, tendemos a responder a estas e muitas outras questões com base no princípio que alterar estados cerebrais corresponde a alterar estados mentais; e que estados cerebrais são alterados pelo funcionamento bioquímico do organismo. Temos alguns indicativos que confirmam a segunda hipótese, mas para a primeira, nossas pesquisas ainda são, de fato, incipientes.

Mas o que quero destacar aqui, é a primeira frase da citação com que inicio o artigo, que afirma que "O grande prestígio da neurociência nas sociedades contemporâneas nasce da desesperança de que elas possam mudar". Se buscamos medicamentos que alterem nossos cérebros para que possamos suportar nossa existência, é por que não acreditamos que nosso existir possa ser modificado. Mas quem disse que o modo como existimos é a única possibilidade? Quem garante que estamos determinados a viver de acordo com padrões que não são condizentes com nossas necessidades? Precisamos, de fato, extirpar a angústia, ou podemos considerá-la como um indicativo de necessidade de mudança?

Texto publicado na íntegra no site Vya Estelar. Para ler mais, clique  aqui

Última atualização em Sex, 03 de Outubro de 2014 15:39